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12 de outubro de 2010

Brasil (Eu) Japão


Se me fosse concedido um poder agora eu iria escolher ser dois, ultrapassar barreiras de espaço e tempo e viver em dois lugares ao mesmo momento. Depois de tantos anos morando no Japão sempre senti falta dos meus amigos, de alguns aspectos da vida aqui e por precisão eu voltei novamente. Agora não consigo esquecer o que vivi e quem deixei no Brasil. A grama do vizinho é sempre mais verde?
Falando assim pareço criança que sempre quer o brinquedo da outra. Talvez. Mas vai um pouco mais além e creio que seja assim com os outros emigrantes. Desde que você vá para outro lugar não tem como não levar pedaços de onde você vem, de quem você é. O problema é que nos adaptamos aqui também e ficamos divididos entre dois lugares para sempre, e não tem jeito, o outro lugar será sempre melhor (pelo menos na mente). Se deve um pouco a natureza humana de nunca estar satisfeito com o que tem. Maior que isso é que por mais que esteja ruim e díficil no momento sempre vai ter aquele fiozinho de esperança que indo ou voltando será melhor.

Sempre ouço falar de pessoas que não conseguem se adaptar aqui ou depois de morar anos no Japão não conseguirem se adaptar no Brasil. Estranho né? Mas compreensível, acho que somos pessoas divididas agora e com diferenças tão grandes entre cada lugar como vamos escolher um só?
Conheço Dekasseguis que não largam o Japão por nada e na mesma intensidade alguns não largam o Brasil, como será que eles conseguem decidir? Parece tão fácil vendo de fora.

Eu gosto daqui! Gosto de videogame novo, de loja de conveniência perto, de oniguiri de atum, Sukiyá e animê. De poder deixar o carro aberto, o respeito a cultura, Okinawa, hanabi, Kurosawa, Hayao Miyasaki e que todas as bandas do mundo querem vir tocar no Japão. Mas eu também gosto de churrasco na rua com os vizinhos, de ir para o bar ver as morenas passarem na calçada, fandangos, feira e dia de final de campeonato na padaria. Gosto de chorinho em tudo que se bebe, pizza por 10,99, fanta uva e que me dêem desconto se eu encher muito o saco.

Gosto de ver as luzes em Nagoya e São Paulo de madrugada, de beber Brahma e Kirin, dos meus amigos no ABC e em Toyohashi, das xilogravuras japonesas e do modernismo brasileiro, gosto de Raul Seixas e Nagabuchi Tsuyoshi, de lámen e pastel, gosto de ver o entardecer das minhas duas cidades, gosto de ver jogo de futebol e torcer para as duas seleções. Pudera eu ser dois, gosto de morar nos dois países, preferiria que fosse em um só, mas gosto de chegar em casa e ver alguém da minha família.

4 de outubro de 2010

3 Vidas


Kodama-san gosta de pescar e precisa. Conheci ele em uma praia pouco tempo atrás, É um cara com mais ou menos seus 45 anos faz de tudo para ajudar quem está próximo, vive sozinho e sem amigos. Estávamos fazendo um churrasquinho e o chamamos para comer também. Na primeira vez ele ficou meio reservado, que não ficaria? Na segunda já estava mais a vontade, ficamos conversando sobre filmes e de como gostáriamos de ver o Resident Evil 4 (aqui Biohazard 4), ele gosta do Bruce Lee a também acha a Lucy Liu linda. Ele mora lá perto e vai todo dia a praia, todas às vezes ele faz questão de pegar um monte de mariscos e ostras e dá para nós apesar de viver uma fase difícil. Mesmo na situação em que se encontra; ele anda fazendo só bicos, sem esposa que há tempos o deixou e só casou para conseguir o visto e comendo Cup Lámen quase todos os dias para economizar, rimos juntos e ele tentou me ensinar posições de luta mas percebi que não sou um bom aluno de artes marciais.

Ishikawa-san foi um senhor que por uma época vi todo o fim de semana e a última notícia que tive dele foi que ele havia falecido. Muito tempo atrás conhecemos ele na estação, ele tinha lá pelos seus 60 anos era mendigo e vivia nas ruas. O primeiro contato foi quando estávamos bebendo uma cerveja esperando o trem e o chamamos para nos acompanhar já que ele estava sentado perto. Outro dia quando ele nos viu por lá pediu para esperar e nos trouxe cervejas, fiquei extremamente sem graça em aceitar e disse que não precisava retribuir, ele não quis nem saber e tive que aceitar já que são os costumes por aqui. Depois ele virou nosso amigo, era um senhor calmo, a traquilidade em pessoa e todo o fim de semana estávamos juntos, conversa vai e vem ele contou que tinha uma filha e uma neta que moravam com a família em Osaka, para quem não conhece é uma cidade quase na mesma proporção de Tokyo, gigante.
Nunca perguntei para ele sobre mas sempre me perguntei o porque dele morar nas ruas. Espero que ele tenha conseguido ver sua netinha antes de falecer.

Didi-kun é a típica pessoa que você pelos cantos de algum lugar. Do mesmo jeito que todos os outros Dekasseguis tem um monte de planos e sonhos e não tem certeza se pelo menos metade vão se realizar.
Por mais que tente ter fé nas pessoas sempre tem mais decepções do que alegrias com isso, mas o bicho é um cabeça dura de uma figa (de onde será que vem essa expressão?) e vai morrer acreditando nisso. É feliz com poucas e pequenas coisas, tenta conviver com a sociedade mas parece que sempre está às margens independente de onde esteja.
Não sei como mas sempre conhece pessoas semelhantes, tenta viver um dia de cada vez e fica agradecido por elas fazerem parte da sua vida mesmo que só de passagem.
Por mais que os anos passem ele continua um bastardo feliz, que bebe e gosta de fazer brindes: Um brinde a nós dois que tentamos fazer das nossas vidas felizes e uma oração para o Ishikawa-san que está em um lugar melhor.
 
 

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